A primavera chegou e com ela o frio. Esses dias estava brincado
com umas amigas que alguma coisa aconteceu no planeta que ninguém se deu conta.
Acho que as placas tectônicas se moveram e mudamos de hemisfério sem perceber.
O inverno está chegando, como deveria ter ocorrido em junho. E quem não tinha
tirado um casaco sequer do armário, já o fez essa semana. São tantos gorros,
cachecóis, meias de lãs, calças de lã, luvas que chega a dar dó da criançada
chegando às 7 horas da manhã por aqui.
E os lojistas de shopping? Estão enlouquecidos. Monta vitrine,
desmonta vitrine. Promoção de inverno, como assim???
A bem da verdade o mundo está mesmo virado do avesso. O clima é
só um dos reflexos dessa inversão de tudo o que vivemos.


Freud, se estivesse vivo, estaria desacreditado com o rumo que as
coisas tomaram. Pra mim, Priscila, a pior das inversões tem sido a do valor
humano. E isso é nítido nas nossas crianças.
Esses dias tive um "piti" com os meus filhos ao sair
do elevador do prédio: entraram 2 vizinhos, cumprimentaram os 2 e eles
ignoraram. Eu, na minha infinita paciência, insisti para que respondessem e um
dos vizinhos retrucou, dizendo: ah deixa, são só crianças.
Como assim só crianças? Lembro-me da época do meu avô, que todos
pediam a bênção antes de entrar em casa. Meus filhos não falam bom dia?
Peguei os 2 no carro e comecei o sermão:
"É o seguinte, prestem bem atenção: educação se aprende em
casa, na escola se aprende a ler, escrever, entender sobre o mundo, a natureza,
o universo. E vocês estão se saindo muito mal educados. Eu fico extremamente
chateada quando uma pessoa cumprimenta vocês e ninguém responde. Falar bom dia,
boa tarde, boa noite, tchau, obrigada, por favor, é E-D-U-C-A-Ç-Ã-O.
Vocês não precisam conversar com as pessoas para serem educados. Mas
precisam fazer uso dessas palavras. Entenderam? (os 2 balançaram a cabeça
afirmativamente). Portanto, daqui pra frente, eu quero ver meus filhos educados.
Vamos combinar?"
Agora, basta um olhar para que as palavrinhas mágicas saim da
boca deles. E o porteiro já está até encantado com o pequeno que encosta no
portão e diz: "Abre pra mim, por favor". E depois que ele abre, o mesmo finaliza com
um "obrigado".
Na época dos meus avós, quando colocávamos comida no prato,
tínhamos que comer. Era falta de educação deixar comida sobrando. Hoje, cada um
faz o que quer. Quer comer, come. Não quer, tudo bem.
Tudo bem? Então por que pegou tudo isso? Você tem que aprender
que se come com a boca e não com os olhos. É isso que eu ensino para os meus.
Coloca-se no prato o que se consegue ou se está disposto a comer. Se gostar ou
não estiver satisfeito, repita. Mas não desperdice. Há muita gente passando
fome por aí para jogarmos comida no lixo. E é muito triste jogarmos fora aquela
lazanha gostosa que a vovó ou a tia da escola preparou com tanto carinho.
Quando meus avós eram vivos, lembro-me que ninguém os
desrespeitava. Quer seja pela idade, pela maturidade, pela hierarquia. Hoje
filho manda em pai/mãe descaradamente: "O que temos pro jantar? Frango! Eu
não gosto de frango. Faz um miojo pra mim." E a mãe vai e faz. Ou
então, "hoje é aniversário da bisa, vamos visitá-la"... "Eu não vou". "Você que sabe". Você que sabe? Você sabe o que é ter uma bisavó? Realmente
não deve saber.
Esses dias eu ouvi um amigo dizendo que na escola do sobrinho
dele está tendo muito problema de bullying. Os maiores roubam os lanches dos
menores, jogam no lixo, cospem, chutam. Prendem os menores no banheiro e
ninguém faz nada. E eu pergunto: E a tua irmã também não faz nada? Ah, mas a escola
é tradicional no bairro, bem conceituada. Todos adoram. Adoram? Como assim? Que
escola que estamos escolhendo para os nossos filhos? Só porque é
tradicional ou famosa por passar no vestibular? E o valor humano? E o respeito
ao próximo? E a compaixão? Na minha época, escola boa era aquela que ensinava
valores humanos. Que nos obrigada a ouvir o Hino Nacional com respeito, pedir
licença para entrar, jogar o papel higiênico no lixo do banheiro. E na época
dos meus avós então, era palmatória, ajoelhava-se no milho, castigo de costas no canto da
sala.
Essas pequenas coisas justificam porque um Michel Teló faz tanto
sucesso, porque um livro de narrativa fraca e confusa, diga-se de passagem, e
conteúdo duvidoso vende mais de 10 milhões de cópias em poucos meses, porque
ouvimos tantas notícias trágicas entre pais e filhos...
Portanto, caros pais, vamos pensar que legado estamos deixando
aos nossos filhos. E no que os estamos transformando. Tenho certeza que essa
não era uma preocupação dos meus avós, mas é uma constante minha.
Priscila Zunno Bocchini